O Brasil está vivendo a era dos recalls. O número de chamados de produtos que oferecem risco à saúde dos consumidores brasileiros explodiu no ano passado, quando o consumidor sofreu com convocações de alimentos e até de camisinhas.

Dados do Procon-SP apontam que em 2011 foram realizadas 78 convocações de mais de 46,6 milhões de unidades de itens. Em 2002 foram 32 recalls de 1.417.652 itens. Ou seja, em nove anos, o número de produtos cresceu 3.193% – 35 vezes mais.

“Esse aumento se deve ao crescimento do mercado de consumo e à fiscalização dos órgãos de defesa do consumidor, punindo as empresas que mascaravam os recalls ou deixavam de fazê-lo”, explica Renan Ferraciolli, diretor de fiscalização do Procon-SP.

O mais grave é que os produtos mais convocados são alimentos, bebidas e itens de higiene e beleza – mercadorias diretamente relacionadas à saúde. Os chamados destes produtos começaram a se destacar a partir de 2007 e, no ano passado, ultrapassaram as de itens de saúde (medicamentos), veículos e artigos infantis – produtos que, historicamente lideravam os recalls desde 2002. Já os itens de higiene e beleza sofreram os primeiros recalls em 2011 – já assumindo a liderança.

A alta em 2011 foi puxada por dois recalls de alimentos e bebidas, que convocaram 34.000.080 artigos, dois recalls de higiene e beleza (com 10.556.269 itens), e 61 campanhas de automóveis (totalizando 651.434 veículos).

Além disso, houve a convocação inimaginável de alguns itens, como 34 milhões de potes do fermento em pó Royal (falha no selo de vedação, que lança o pó para fora da embalagem), 10,4 milhões de antissépticos bucais da Oral B (risco de contaminação por bactéria), 80 itens do Toddynho (contaminado por detergente) e até 116 mil preservativos masculinos da Blowtex (falha de resistência).

Precaução – Alguns consumidores reclamam da demora e obstáculos para atender às convocações. É o que diz o funcionário público Ivanhoe Robson Marques Bonatelli, de 50 anos, que comprou um dos antissépticos bucais convocados pela Oral B. “A empresa prometeu depositar o dinheiro (que paguei pelo produto) na minha conta em agosto do ano passado. Mas nada recebi até hoje”, conta o consumidor, que ainda guarda o produto como prova. A empresa informa que o depósito já foi feito, mas ele rebate: “Tenho os extratos e não entrou nada na minha conta.”

Já a dona de casa carioca Lilian Passos, 53, comprou um fermento em pó Royal e, certo dia, viu uma nota nos jornais sobre um recall que a Kraft Foods Brasil anunciou sobre o produto. “Olhei o prazo de validade (10 de agosto de 2012) e era exatamente o do lote com problema. No mesmo dia entrei em contato com o SAC. Mandaram não abrir e marcaram uma semana para fazer a troca, mas não apareceram.”

Dois meses depois, ela já tinha até esquecido do recall, quando achou o produto no armário. “Nesse tempo, fiquei com uma bomba relógio em casa e não deram a mínima e me deixaram com um produto nas mãos que, segundo a própria fabricante informou, ao ser aberto pode explodir”, conta ela, que entrou em contato novamente com a empresa – que ainda demorou cerca de um mês para realizar a troca.

No acumulado desde 2002, os artigos para a saúde foram os mais afetados pelas convocações, com 49.027.976 produtos (42,97%), seguido por 45.699.217 de alimentos e bebidas afetados (40,05%) e 10.556.269 itens de higiene e beleza (9,25%).

SAULO LUZ